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6 meses após cancelamento, maior festival de rap do país segue sem pagar artistas e reembolsos

Cena 2k25 é marcado por cancelamentos, brigas e problemas na organização Divulgação Em novembro de 2025, a Neo Química Arena, em São Paulo, recebeu a 4ª...

6 meses após cancelamento, maior festival de rap do país segue sem pagar artistas e reembolsos
6 meses após cancelamento, maior festival de rap do país segue sem pagar artistas e reembolsos (Foto: Reprodução)

Cena 2k25 é marcado por cancelamentos, brigas e problemas na organização Divulgação Em novembro de 2025, a Neo Química Arena, em São Paulo, recebeu a 4ª edição do festival Cena 2K, o principal evento de rap do Brasil. Marcado por atrasos, briga nos bastidores e o cancelamento do último dos três dias de shows, o evento segue com contas a pagar com artistas, fornecedores e público. O g1 falou com envolvidos que não receberam valores combinados, incluindo cachês e estorno de ingresso. Dezenas de pessoas dos mais variados estados recorreram à Justiça buscando reaver o dinheiro pago para aproveitar os shows. A Bilheteria Digital, responsável pela venda de ingressos, informou ao g1 em nota que “atuou estritamente como plataforma de intermediação para a venda de ingressos”. “A empresa informa que a totalidade dos valores arrecadados foi integralmente repassada para a organização do festival, tendo a Bilheteria Digital cumprido todas as suas obrigações." Agora no g1 A empresa explicou também que, “semanas antes do cancelamento definitivo, o contrato de prestação de serviços entre as partes foi formalmente rescindido em comum acordo”. Os representantes do Cena Festival (Alex Ribeiro, Gabriel Romano e Jé Santiago) foram contatados pelo g1 na última terça-feira (19) e, desde sexta-feira (22), afirmaram que enviariam uma nota com esclarecimentos, mas não retornaram até a conclusão desta reportagem. O espaço será atualizado caso haja resposta dos envolvidos. Mudança de datas e primeiros processos Em 2019, o festival Cena 2k realizou sua primeira edição tendo como principal destaque Quavo, conhecido por integrar o trio Migos, um dos grandes nomes do hip hop mundial. Além da atração internacional, o evento também contou com estrelas do rap nacional, como Djonga, Filipe Ret, L7nnon e outros. Em 2022, já no pós-pandemia, o evento cresceu ainda mais, trazendo o norte-americano Playboi Carti, Racionais MCs, Karol Conká e MC Cabelinho. Nos últimos anos, o evento já estava consolidado entre os principais eventos da cultura hip-hop no país, sempre mesclando nomes internacionais e nacionais. Imagem do público na segunda noite do Festival Cena 2K, que aconteceu na Neo Química Arena, em Itaquera Reprodução/Instagram No entanto, já corria nos bastidores a informação de que o evento enfrentava problemas de fluxo de caixa e com seus investidores da Four Even, empresa do segmento do sertanejo. O g1 apurou que, nos últimos anos, a empresa foi contra realização do festival por considerar o retorno financeiro baixo. Em 2025, o primeiro problema surgiu antes mesmo da data prevista para início do evento. Inicialmente previsto para os dias 28, 29 e 30 de novembro, o festival mudou para os dias 21, 22 e 23 de novembro por problemas de agenda com a tabela de jogos do Corinthians, clube que manda suas partidas na Neo Química Arena. A mudança de datas gerou reclamações. Parte do público tentou cancelar a compra dos ingressos e reaver os valores, mas não obteve sucesso. Foi o caso de Maria Clara Alencar, que comprou dois ingressos na pré-venda, no valor de R$ 403 via PIX. Com a mudança de data, ela não conseguiria comparecer ao evento e pediu reembolso. O g1 conversou Juciara Abreu, advogada que representa Maria Clara. Ela explicou que sua cliente tentou um pedido de reembolso via Procon, mas a Bilheteria Digital informou que é apenas intermediária e que reembolsos são de responsabilidade do produtor do evento. Desde então, Juciara diz que não recebeu nenhum retorno do festival. O caso agora está na Justiça, onde ela busca indenização por danos morais para Maria Clara. Além dos problemas gerados pela alteração de data, o Cena 2K perdeu a parceria com a Bilheteria Digital na semana anterior ao festival, o que impactou diretamente o caixa do evento. Entre o final de setembro e o início de outubro, o festival já enfrentava problemas legais pois os advogados que cuidavam das questões jurídicas e contratos com artistas encerraram a parceria com o evento. Segundo o g1 apurou, o problema se deu pois um dos profissionais do escritório contratado, que é judeu, se incomodou com a negociação de representantes do Cena 2K com o rapper Kanye West, que no passado fez uma série de comentários antissemitas e chegou a vender uma camisa com o símbolo da suástica e lançou uma canção com o nome “Heil Hitler”, uma saudação nazista. Sem advogados, o evento negociou os últimos detalhes das apresentações e pagamento de cachês via WhatsApp, sem formalizações legais. Problemas do início ao fim Mesmo com muita desconfiança e problemas nos bastidores, o festival teve início no dia 21 de novembro de 2025. Ao todo, mais de 120 artistas foram anunciados para os três dias de evento, que contou com dois palcos: Trap Hits e Palco Cena. A grade horária foi divulgada horas antes do início do evento. Fãs relataram que vários shows de artistas menores tiveram o microfone cortado, sob vaias da plateia. Nesse dia, o artista Ryu, The Runner disse que teve seu show cancelado de última hora pelo festival, sem explicações. Nicole Kirsanoff trabalhou na produção do evento. Ela conta ao g1 que, desde o primeiro momento, faltava tudo: desde pulseiras para autorizar a entrada de artistas e equipe até o pagamento de fornecedores. Segundo o g1 apurou, ao menos seis artistas não foram pagos pelo festival. Foi o caso de Yuri Redicopa, que acordou com a produção do Cena 2K um cachê de R$ 15 mil para se apresentar no primeiro dia de evento. Ele recebeu apenas um sinal de R$ 700. Ao g1, a produção do artista diz que investiu mais de R$ 40 mil para realização do espetáculo e ainda precisou arcar com parte da pirotecnia da apresentação (custo que seria do evento). Eles tentam receber os cerca de R$ 14 mil restantes do cachê na Justiça. Nas redes sociais, a rapper Nanda Tsunami também reclamou que não recebeu seu cachê e cobrou os organizadores do evento. No segundo dia, os horários não foram divulgados oficialmente. Vários artistas tiveram que anunciar por conta própria, em suas redes sociais, quando e em que palco se apresentariam — alguns, inclusive, com informações conflitantes. Nenhum dos grandes nomes internacionais chegou a subir no palco. Em cima da hora, o festival anunciou o cancelamento do headliner Young Thug, bem como A$ap Ferg, Oodaredevil e Zukenee por "motivos internos e externos". O músico Lil Gotit publicou que não viria por "razões do festival". Já no fim do sábado, uma briga generalizada nos bastidores entre a equipe do rapper Major RD e seguranças do local gerou problemas com a administração da Neo Química Arena. Vidros e outros objetos foram quebrados durante a confusão. Ao g1, Major RD disse que a discussão nos bastidores no festival começou quando ele foi impedido de entrar no próprio camarim. Com falta de pagamento da estrutura básica, como primeiros socorros e montagem de palcos, além de fornecedores e os próprios artistas, o domingo começou com incerteza sobre a apresentação. Mesmo com dúvidas sobre a realização das apresentações, o evento não fornecia informações. Até que às 13h, a Neo Química Arena publicou uma nota afirmando que, após vistoria da Polícia Militar, o evento estava cancelado. "A avaliação da PM foi a de que o evento não oferece os serviços médicos necessários para os presentes, contrapartidas obrigatórias da organização para a realização do festival e que eram de responsabilidade do Cena 2K", disse o comunicado. O g1 tentou contato com a Neo Química Arena, mas não houve retorno. O espaço segue aberto caso. Initial plugin text Nicole diz que chegou a ir para o local do evento para receber o valor combinado pelo seu trabalho na produção. Até o momento, dos cerca de R$ 3 mil acordados, ela aguarda o pagamento de R$ 600 restantes. "Foi tudo muito confuso, era tudo muito bagunçado. Por excesso de artistas, eles foram forçando que o evento começasse cada vez mais cedo, mais cedo. Até que chegou num ponto que teve artista se apresentando com os portões fechados. Eles não pagaram seguranças, produtores, nada", explica Nicole. Seis meses depois, o evento enfrenta dezenas de processos na Justiça, a maioria cobrando pelos reembolsos de ingressos. Ícaro Lamas, advogado que representa uma série de pessoas que não conseguiram o reembolso do ingresso, afirmou ao g1 que, até o momento, não conseguiu retorno do evento ou da Bilheteria Digital. "O festival deixou todos os consumidores no escuro, sem transparência nenhuma sobre os cancelamentos. No caso, é aplicado o Código de Defesa do Consumidor, que protege os consumidores nessa situação, autorizando o reembolso do ingresso pago, de todos os gastos para ida ao festival (passagens, estadia...) e indenização por danos morais, diante da falha de serviço das empresas envolvidas e frustração da expectativa de quem comprou o ingresso."